Valdirene voltou a entrar na minha vida literária, desta vez desaparecendo com um livro emprestado. Na bagunçada manhã de segunda ele estava aqui. Ao entardecer, a casa arrumada, Noturno Chileno iniciava seu longo período no exílio. Por dias fui assaltado por angústia, culpa e suspeita. Valdirene, que gostava de românticos brasileiros e policiais noir, estaria agora desenvolvendo uma insuspeitada queda por literatura latinoamericana contemporânea?
Bem, acabou sendo uma faxina de poder. Enquanto procurava o fugitivo acabei desencavando outro livro. Um Umberto Eco que não é chato. Reli Seis Passeios pelos Bosques da Ficção e me surpreendi ao encontrar um texto claro e divertido. São seis conferências sobre literatura. Há vários esquemas e esquemas dentro de esquemas, essa compulsão dos semióticos, mas ainda assim é bom. Pois bem, enquanto lia Eco o Bolano ressurgiu das brumas empoeiradas da mais distante prateleira. Aliviado, inicio a leitura, já preocupado com o longo atraso. Ou seja, quero ler rápido, e rápido vou lendo até essa compreensão primordial da natureza da obra: ela começa num parágrafo e não para. Só uma linha depois da outra. Do início ao fim. Com frases como essa:
Depois Farewell pagou o jantar, e o acompanhei até a porta da sua casa, onde eu não quis entrar, porque tudo era naufrágio, depois me vi caminhando sozinho pelas ruas de Santiago, pensando em Alexandre III, em Urbano IV, em Bonifácio VIII, enquanto uma brisa fresca acariciava meu rosto procurando me acordar completamente, embora acordar completamente fosse impossível, pois no fundo do cérebro eu ouvia as vozes dos papas, como os piados distantes de um bando de pássaros, sinal inequívoco de que uma parte da minha consciência ainda sonhava ou voluntariamente não queria sair do labirinto dos sonhos, esse campo de marte onde se esconde o jovem envelhecido e onde se escondem os poetas mortos que então viviam e, da iminência certa do seu esquecimento, erguiam no interior da minha abóbada cranial a miserável cripta dos seus nomes, das suas silhuetas recortadas em cartolina preta, das suas obras demolidas, o que não era o caso do jovem envelhecido, na época apenas um menino do Sul, da fronteira chuvosa e do rio mais caudaloso da pátria, o Bío-Bío temível, o qual, porém, agora às vezes, confundo com a horda dos poetas chilenos e das suas obras, que o tempo impassível demolia então, quando eu me afastava da casa de Farewell pela noite de Santiago, e demole enquanto levanto meu corpo, apoiado num cotovelo, e demolirá quando eu já não estiver aqui, isto é, quando eu já não existir ou só existir minha reputação, minha reputação que se assemmelha a um crepúsculo, assim como a reputação de outros parece uma baleia, um morro pelado, um barco, um rastro de fumaça ou uma cidade labirníntica, minha reputação, que parece um crepúsculo, contemplará com as pálpebras apenas entreabertas o ligeiro espasmo do tempo e as demolições, o tempo que se move pelos campos de Marte como uma brisa conjectural e em cujo redemoinho se afogam como figuras de Delville os escritores cujos livros resenhei, os escritores de quem recebi críticas, os agonizantes do Chile e da América cujas vozes pronunciaram meu nome, padre Ibacache, padre Ibacache, pense em nós enquanto o senhor se afasta em passos dançarinhos da casa de Farewell, pense em nós enquanto suas passadas internam o senhor na noite inexorável de Santiago, padre Ibacache, padre Ibacache, pense em nossas ambições e em nossos anseios, em nossa surda condição de homens e cidadãos, de compatriotas e escritores, enquanto o senhor penetra nas dobras fantasmagóricas do tempo, esse tempo que só podemos perceber em três dimensões mas na realiade tem quatro ou talvez cinco, como a barbacã da sombra de Sordello, que Sordello?, que nem o próprio sol pode destruir.
É, longas, longas sentenças. E nada de capítulos. Quem consegue ler correndo? Essa impossibilidade me fez ter um respeito todo especial pelo livro. Um respeito que imediatamente transbordou para a literatura, me lembrando como é bom ler, reconfortante sensação que venho tendo desde que fui recentemente apresentado à obra de Bolano. Mas enfim, e não é que um capítulo do Eco é exatamente sobre as estratégias de autores para pontuar a velocidade de seus leitores e evitar a correria? Tipo Valdirene, em sua sabedoria insondável e organização desacerebrada, sumiu com Noturno Chileno para que eu lesse antes Os seis passeios pelos bosques da ficção e encontrasse uma trilha limpa em um livro de muitos caminhos.




Estou lendo Quando Nietzsche chorou e fico de olho no bigode. É tipo um elemento narrativo usado pelo autor para marcar momentos “dramáticos” da trama. A coisa pega quando o bigode de Nietzsche aparece. É um recurso divertido, mas pobre. O livro tem um verniz nobre, com seus personagens históricos cruzando Viena em fiacres e discutindo o sentido da vida. Mas debaixo do verniz é quase uma obra de auto ajuda: diálogos didáticos, mensagem edificante, encadeamento simplório. Como diria o célebre filósofo contemporâneo Besserman Vianna, o Bussunda, o livro autoajudou o autor a ficar mais rico. Vide a série de títulos lançados na sequência pelo mesmo Irvin Yalom. Espero não encontrar nenhuma iluminação no final. Queria encontrar mesmo era o velho Fred, que, pelo que soube, largou a filosofia, mas não o bigode, e foi viver em Trancoso. 

