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Tolkien X Martin

Eu gosto de Tolkien, uma preferência que não é de bom tom nem nos meios literários mais sofisticados e nem nos menos. Minha mãe, por exemplo, fala assim: “ah, você gosta deste tipo de livro…”, inflexionando tipo de tal forma a expressar:

1) Seu profundo desprezo por este tipo de livro.

2) Seu desgosto pelo filho que, apesar do investimento de tempo, dinheiro e carinho, gosta deste exato tipo de livro.

3) Um certo ressentimento e tristeza pelo mundo ser como é e livros deste tipo existirem. Ninguém perguntou a ela, mas, ah se tivessem perguntado…

De vez em quando releio o Senhor dos Anéis e tentei emplacar o Hobbit com os meninos, mas o João teve pesadelos com o Gollum e suspendi. Admiro Tolkien pelos motivos mais prosaicos. A cada ano fiscal é mais difícil se entregar ao universo de elfos, orcs e magos da terra-média, mas, ainda assim, vou lá e me divirto. Mas não sou militante (como sou, por exemplo, com o Bolaño). Gosto de Tolkien, mas não faço proselitismo. Até por não ser de bom tom.

Mas me senti na obrigação de expressar minha inquietação depois de ler A Guerra dos Tronos (e Fúria de Reis). Achei bem ruim, embora tenha devorado os dois, com aquela compulsão típica. Aventurei-me na série porque li que George Martin era o novo Tolkien.  Tosco isso, mas assim é, vai que o cara é bom mesmo e está vivo. Mas ele não é Tolkien, imagino que nem queira ser. As estruturas narrativas dele são todas recentes e, mesmo entre dragões e zumbis, o personagens são os mesmos desta última onda best-seller. Intensos e extraordinários, em tempos convulsionados. Uma coisa, sô. O problema é aguentar tanta intensidade por centenas e centenas de páginas a fio, entremeadas por sexo gratuito, eventos sobrenaturais constantes e reviravoltas sem fim. Eu terminei o primeiro em dúvida, mas o segundo é um desastre, são 650 páginas de lereia. Personagem passa o livro em mil e uma aventuras para terminar, juro, exatamente na mesma.

E aí você se pergunta para quê comprar o terceiro? Pois é.

Pois bem, morreu o Piva, coitado. Morreu há meses, descobri ao iniciar o post, naquela pesquisa básica. Bem, não era nenhum Drummond, para dar no Jornal Nacional. Tanto é que, assim, aqui tudo começa. Lá no passado que agora me parece distante, num plantão de fim de ano de redação, na feirinha dos rejeitados que o pessoal do caderno de Cultura fazia para esvaziar as estantes, eu catei o que seria um belíssimo livro de ensaios do meu poeta querido.  A feirinha era assim, um salve-se quem puder, não dava para ficar escolhendo demais ou o que era bom sumia. Eu peguei uma coletânea passável do Manoel Bandeira, daquelas de banca de jornal, e o Piva. Grosso e bonito. Chamava-se Contemporâneo de mim (?!).

Só que o Piva não era Piva, era Piza. Era o Daniel Piza. Sei lá se eu estava lesado ou o quê, mas não lia o Piva há uma data e, na confusão, tipo querendo me dar bem, tipo achando que era o foda para resgatar uma pérola no mar de autoajuda&gestão&iluminaçõesespirituais, vi lá um livro grandão e bem editado e resolvi que o Roberto Piva era o Daniel Piza.

A São Paulo de Piva, o verdadeiro. Foto do companheiro de jornada Wesley Duke Lee

Daniel quem? Prazer, o Piza é um jornalista e o livro uma coletânea de artigos. Como todo bom jornalista, fica à vontade para se expressar, com autoridade, sobre todos os aspectos da existência humana. Percebida a mancada,  encostei o livro. Até outro dia, quando precisei de espaço na estante e peguei o calhamaço com o firme propósito de enviá-lo para o quartinho dos fundos, junto com a tábua de passar roupa, os vestidos de festa da Viviane e a coleção do Jorge Amado que é boa demais para ser jogada fora mas grande demais para ficar na estante. Mas, a caminho do exílio, li um artigo sobre best sellers, um artigo sagaz.

O artigo salvou o livro do destino inglório e suas variadas considerações serão objeto de um post futuro. O importante é que passei a olhar os best sellers de maneira diferente e, ainda melhor, ganhei algumas referências para saborear os absolutamente não best sellers. Como o próprio Piva, que é tipo a própria antimatéria das listas dos mais vendidos. É uma poesia irada, viva e inaplicável.

Três poemas:

cruzo avenidas insones & corroídas
de chuva
minha mão alcança minha dor
presente
& me preparo para um dia duro
amargo& pegajoso
a tarde desaba seu azul sobre
os telhados do mundo
você não veio ao nosso encontro & eu
morro um pouco & me encontro só
numa cidade de muros
você talvez não saiba do ritual
do amor como uma fonte
a água que corre não correrá
jamais a mesma até o poente
minha dor é um anjo ferido
de morte
mestre Murilo Mendes tua poesia são
os sapatos de abóboras que eu calço
nestes dias de verão.
negócio de bruxas.
o sol caía na marmita do
adolescente da lavanderia.
você veria isto com
seu olhar silvestre.
um murro bem dado no vitral
que eu mais adoro.
Assim não dá meu tesão
eu começo a sonhar com você todas as tardes
& você lá em Santos
comendo amendoim
vendo anjos nas cebolas do mercado
navios entram & saem do porto polidos
eu corto as veias & rego meu queijo de Minas
você me ama eu sei & e me envaideço
amoras jorram a beleza anarquista de suas
coxas molhadas
o peixe-espada pode lhe declarar amor
eu penso nessas ilhas perfumadas
mas o caminho de volta eu só conto
a esse urubu em carne viva
que grasna na sacada.
 

Tanta porcaria eu guardei, pergunto-me, por que não está aqui a playboy da Bruna Lombardi? Isso sim seria uma herança honesta para deixar para o filhão e não esse tanto de livro velho, como, inclusive, este livro da Bruna que reapareceu expelido das profundezas da estante pela mesma convulsão que desalojou o Fante de seu sono eterno.

Filmes Proibidos é de 1990.  Reli vários trechos e me diverti à beça. É ruim, mas é ótimo também. Lembro-me que, à época, a crítica foi severa. Pobre Bruna, sério, acho que ela podia ser Clarice revivida (os mesmos olhos verdes?) e, ainda assim, não seria levada a sério. Um ano depois do lançamento estava na capa da minha finada playboy, onde, também me lembro, recebeu críticas arrebatadoras.

O enredo do livro é tipo “Mulher intensa leva vida intensa em metrópole, em meio a amores intensos e devastadores”. Citações em tudo quanto é página. Também bastante fumaça, neon, punks, publicitários, bares undergrounds, dúvidas existenciais e outros musts dos 80. Mas ela não se leva tanto a sério e, assim, há alguns momentos bons. Como:

Deve haver uma relação implícita entre lobotomia, traumatismo cerebral e paixão em estado bruto. Só uma mente muito perturbada teria a iniciativa de procurar uma cartomante que vende cremes de beleza. Eu me sentia insegura, precisava de respostas. Estava aflita e Madame Agda e sua linha completa de cremes Lisonge me pareceram suficientes. Toquei a campainha.

Madame Agda tem um sotaque falso que tanto poderia ser russo, polonês ou paraguaio e o olhar insinuosamente firme. Deve ter ensaiado muito pra chegar a isso. “Um homem, não?” “Um homem”, respondo estudadamente seca.

É, era divertida a Bruna. Saudades? Aqui (18+).

Nos livros de Bukowski e Fante mulher não tem bunda, tem rabo. Rabos paradisíacos, rabos apocalípticos, rabos desafiadores. Gosto dos dois autores, pelos mesmos motivos. É uma outra América ali. Vulgar, patética, hostil. Do tsunami provocado pela instalação de uma mísera tomada aqui no escritório emergiram juntos, vejam que coincidência, Misto Quente e Sonhos de Bunker Hill. A infância de Henry Chinaski e a juventude de Arturo Bandini. Dois velhos companheiros. Eu mal me lembrava das primeiras desventuras de Bandini em Los Angeles e me pergunto se o Guto ainda guarda seu exemplar de Pergunte ao pó, esse sim inesquecível. Peguei emprestado lá no pátio do Coltec, em alguma primavera de milnovecentoseoitentaetantos, e devolvi. Se sumiu, não fui eu. Meu Misto Quente é da mesma época e é o que eu mais gosto do Bukowski. Estou usando para guardar a papelada juntada para a declaração do imposto de renda, considero isso tipo uma homenagem. Pobre Chinaski, virou uma caricatura dele mesmo nos sucessivos contos publicados ao longo dos anos. Já reclamei aqui. Mas neste livro ele é um personagem único. Ele e seus primeiros rabos.

Chinaski e o rabo indelével

“Uma mulher veio andando pela rua na minha direção. Tinha pernas ótimas. Primeiro eu olhei ela nos olhos, depois nas suas pernas e, assim que passou, olhei seu rabo, lambi aquela bunda. Memorizei aquele traseiro e as costuras de suas meias de seda. Eu nunca faria aquilo sem as minhas ataduras.”

Bandini e o rabo paradisíaco

“Eu estava sentada na varanda lendo Melville quando o carro surgiu. Era um Ford Modelo-A, e o motorista era uma garota. Ela parou a máquina e desceu. Olhei para a praia. O Duque não estava a vista. A garota atravessou até a varanda dele e bateu na porta. Era maravilhosa, vestida numa mini-saia azul e num suéter azul. Seu rabo era do paraíso. Seu rosto era exoticamente fino sob a franja dos cabelos pretos e olhos brilhantes.”

Bom mesmo era medo de bomba atômica. Fácil de identificar e de entender, com seu fulgurante cogumelo de fogo e fumaça. Os culpados faziam parte do terrível complexo militar-industrial-soviético-americano. E mais, a bomba impunha um sentido de urgência à vida. Bastava um botão apertado e, bum, bye bye humanidade.

Hoje é essa labuta com o aquecimento global, uma catástrofe que vai nos matar bem devagarinho. E pior, não dá para pôr a culpa em algum distante chefe de estado carrancudo. Todo mundo é culpado, não posso comer um bife sem contribuir para o derretimento das calotas polares.

Enfim, o aquecimento deixa a gente neurótico, a  guerra fria deixa todo mundo paranóico. Watchmen é uma história de paranóicos. Reli outro dia, depois de ver um pedaço do filme. Continua legal, com seus heróis aposentados em uma Nova York suja e tomada por gangues, suas histórias dentro das histórias e o clima geral de apocalipse.

A possibilidade de guerra permeia as 12 edições e o medo é um medo muito específico, um medo bem assim anos 80. Dá para imaginar o Alan Moore lá bolando o argumento enquanto assistia o Reagan na tevê espezinhando o Brezhenev e seu império do mal. Mas ela sobrevive ao tempo, mesmo com seus mísseis e vilões megalomaníacos. É ainda uma história adulta sobre solidão, cinismo e egoísmo, em que sobra para todo mundo. E tem o Rorschach, o herói que  o Batman sonhava ser.

2010

“Espero que vocês morram atropelados por um tanque”, pensou Benno von Archimboldi, enquanto recebia a estrelinha de personagem do ano de um sorridente Sal Paradise.  Aplausos entusiasmados, assobios, suspiros libidinosos dos vizinhos e umas latas de cerveja atiradas por Dee Dee Ramone.  No andar de baixo, vaias esparsas e ranger de dentes.  “Es mucha vergonha para um clássico. Cinquenta años de glória e ser olvidado por este arrivista prussiano de mierda. Ahora, so me restam mis memorias”, amargurou-se Morel.  E assim, em um clima de confraternização e paz todos voltaram para suas prateleiras. “No ano que vem mereço uma releitura crítica decente”, resmungou Zac Power, antes de dormir.

Dia de festa

No Rio foi um sucesso, nem conto para vocês. Sábado (23/10) é em BH, conto com vocês.

Eu conheço gente que me ouve com atenção discorrer sobre como Baby Consuelo é a grande diva injustiçada do rock brasileiro e gente que, com pouco esforço, me convence a ouvir garage bands africanas dos anos 60. Falar de música é moleza. Há mais de duas décadas eu tenho com quem conversar sobre Bowie, Velvet e Legião. Ou Roberto, Queen e Jupiter Maçã. Ou qualquer um da biblioteca do itunes.

Baby Consuelo inspirou personagem de Os Detetives Selvagens

Não posso dizer o mesmo sobre livros. Não com essa variedade, intensidade e persistência no tempo. Leio mais do que escuto música, mas converso muito menos sobre. Não me lembro de, num sofá ou mesa de bar, compartilhar os motivos de gostar mais de Rubem Braga do que de todos os outros cronistas do universo ou apresentar minha defesa de Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban como o melhor da série. Nem de ser convencido a dar uma segunda chance a Mia Couto e, isso realmente seria memorável, ser instado a retomar Em Busca do Tempo Perdido com argumentos sólidos a respeito dos três últimos volumes.

Vocês acham que é um problema meu, da literatura ou da vida como ela é?

Poucos autores sairam da minha estante e se fizeram presentes em discussões emocionadas e, eventualmente, acaloradas, e, mais raramente ainda, físicamente doloridas. Assim, de cabeça, me lembro de Leminski e Caio, que a gente se reunia para discutir a cada livro novo, e os beats, ainda na escola, e Saramago, até hoje, com a Viviane.

Bem, agora tem também o Bolaño. Volta e meia me encontro ouvindo ou falando sobre. Uma felicidade, isso. É meio viral, li por insistência e tenho insistido para que leiam.  Leia você também. Amuleto é uma ótima introdução. Ou vá logo para a saga Os Detetives Selvagens. Ou encare 2666, me chame para uma cerveja e eu pedirei pessoalmente desculpas pelo infame trocadilho do título.

Dois de uma vez

E o Glauco Mattoso e o H.P.Lovecraft ganharam um novo vizinho.

Conan, o condescendente

Agora que meus pais praticamente me consideram adulto fui autorizado a conhecer detalhes inconvenientes da história do meu avô paterno. Dele herdei vários livros e gostava de imaginá-lo quase um intelectual. Bem. Outro dia discutia-se na família se minha vó, ao sumir com o dinheiro da carteira do marido para evitar que o minguado salário fosse gasto nas noitadas ou perdido no jogo, estaria cometendo algum tipo de crime. Tive que rever alguns conceitos e, desde então, meu avô é um quase intelectual com tendências boêmias e queda para o jogo.  Ficou até bom. O que me leva ao motivo deste post. Também tive que rever meus conceitos em relação ao Sherlock Holmes. Tenho bastante orgulho da minha coleção, que era do meu avô, com todas as peripécias do detetive. As capas são realmente muito bonitas, já achava isso bem antes de ser remunerado para pensar em capas. Li e reli ao longo dos anos, sempre me divertindo, mas só na última investida, após ver o filme, percebi que o personagem não é exatamente um paladino da justiça. Sherlock adora desvendar seus mistérios, mas é mais importante salvar e manter as aparências do que exatamente punir os culpados. Conan Doyle é excepcionalmente condescendente com nobres, políticos e ricos. Três exemplos:

Charles Augustus Milverton (Holmes testemunha assassinato e fica na dele)

Nenhuma interferência nossa teria salvo o homem de seu destino, mas, ao ver a mulher deflagrar tiro após tiro sobre Milverton, eu teria pulado, se Holmes não me segurasse pelo braço. Compreendi o que queria dizer aquela pressão firme: o assunto não nos dizia respeito.

A escola do priorado (lorde forja sequestro do filho, professor inocente morre na ação e Vossa Graça escapa impunemente)

Agora, tendo cuidado do futuro, podemos ser mais condescendentes com o passado. Não tenho cargo oficial e não há motivo para eu revelar tudo o que sei. Quanto a Hayes, nada tenho a dizer. Espera-o a fôrca e eu nada faria para salvá-lo. Se não descobrirem mais nada, não vejo razão para eu lhes abrir os olhos.

A Granja da Abadia (Marinheiro mata marido de ex-namorada, é julgado e inocentado pela dupla Holmes/Watson)

Pois bem, é uma grande responsabilidade que tomo, mas fiz uma alusão a Hopkins e, se êle não a aproveitar, paciência. Escute aqui, Capitão Crocker, vamos fazer isto a exemplo da lei. O senhor é o prisioneiro. Watson, você é o juri britânico. Eu sou o juiz. Agora, senhores jurados, consideram o réu culpado ou inocente? Inocente, Meritíssimo Juiz, respondi. Vox Populi, vox Dei. Está absolvido, Capitão Crocker.

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