O texto é do livro “Que País é este?”, de 1972. Podia ser “Que País é este?”, de 2012.
Fui consultado, por um amigo que ocupa cargo público, para dar minha sábia opinião sobre grave problema funcional em que se acha envolvido. Em agradecimento por alguns milhões de cruzeiros novos que meu amigo, sem o menor interesse, favoreceu a certa firma ganhar, os diretores da mesma resolveram lhe oferecer aquilo que se convencionou chamar de ”uma lembrança”. Depois de pensarem que tipo, tamanho e forma deveria ter a tal lembrança, os empreiteiros chegaram à óbvia conclusão de que não há, em todo o design moderno, forma tão perfeita quanto a do tradicional saco de dinheiro. Meu amigo, embora certo de que a ética social deve ser respeitada, está também convencido de que, sendo homem razoavelmente pobre (está apenas no começo do oitavo milhão), terá, aceitando o dito saco-de-ouro-homenagem-lembrança, a oportunidade de, no prosseguimento de sua carreira, agir com total e absoluta integridade. E resume a consulta: 1) Pode um funcionário público receber sob a forma de um saco de dinheiro o testemunho da gratidão de alguns empreiteiros, sem se expor à fácil acusação de estar favorecendo antes, ou acobertando depois, os ditos empreiteiros e, portanto, correndo o risco de ser enquadrado na forma jurídica denominada peculato? 2) Ao aceitar a soma ensacada que lhe oferecem, o funcionário público não seria culpado de “ato de negligência na devolução de fundos recebidosindevidamente como pessoa física não habilitada? 3) No caso de qualquer objeção, moral ou material, por mais leve que seja, a meu amigo conservar, na conta corrente do seu banco, o saco de dinheiro amistosamente ofertado, poder-se-ia transformar esse saco em objetos moralmente mais “assimiláveis”, tais como baixelas de prata, faqueiros de ouro ou quadros de pintores mortos?
Dizer que o Millôr é atual é bobagem, ele é atemporal. Morreu antes da publicação do post, ensaiado ao longo dos anos. “É…”, em suas clássicas palavras. Eu comecei a ler com uns 11 anos, naquela página da Veja ocupada, na sequência, pelo Luis Fernando Veríssimo. Mas minha lembrança é de um texto do livro de português do Pitágoras, na quinta ou sexta série. Um clássico:
Sempre Alerta!
Grande espírito, o daquele escoteiro. Estava na rua, segurando seu feroz cão policial, quando viu parar um ônibus. Os passageiros desceram, subiram, o ônibus pôs-se a andar. No momento em que o ônibus ia andando apareceu um velhinho tentando pegá-lo. Correu atrás do ônibus. Quando já o ia pegando o ônibus aumentou a velocidade. No instante exato em que o velhinho, aborrecido, ia desistir do ônibus, o escoteiro não teve dúvida: soltou o cachorro policial em cima dele. O velho pôs-se a correr desesperadamente e, como única salvação, pegou o ônibus que já ia quinhentos metros adiante. O escoteiro segurou de novo o cão e voltou para casa, feliz, tendo praticado sua boa ação do dia.
Moral: No cerne da violência nem sempre há violência
Nunca me esqueci da moral. Tinha um glossário explicando que cerne era a parte de dentro da árvore, o que nos confundiu bastante nas questões de interpretação de texto. Uma pérola. Curto, cheio de leituras, pode ser espancado, mas não se entrega. Este é do Fábulas Fabulosas, que me acompanha desde sempre. Por muito tempo sobrevivi só com ele e a Bíblia do Caos. Pois parte da obra foi relançada pela Desiderata há uns anos e arrumei um conjunto espetacular. Trinta Anos de Mim Mesmo, Que País é este?, A Verdadeira História do Paraíso, Ministério de Perguntas Cretinas. Li e reli ao longo destes últimos anos, rascunhei uns ensaios sobre a obra, foi um candidato a post desde o início. Pois foi-se o Millôr, agora só homenagem póstuma. Morreu um gênio do humor. A crítica política mordaz é um espetáculo, mas a essência humorística é a que mais me atrai. Vejam essa sequência nonsense do “Ministério de Perguntas Cretinas”, um coletânea de frases criadas desde os tempos em que ele assinava Vão Gogo:
Quando você dá um tiro com a mão destra e mata um sujeito, a destra vira sinistra? O rei da voz usa coroa na garganta? Ah, é no dente? Quando alguém manda você lamber sabão, você vai? E sabonete? E se existem questões meteorológicas por que não existem questões meteorosemsensonenhum? E tem alguma que você entende? Um juiz de futebol que recebe dinheiro dos dois lados é um sujeito imparcial? E a mulher do ator de teatro quando ele chega em casa tarde, faz uma cena? Quando a secretária do patrão diz que sim, diz que sim, diz que sim, você idem? Eu não sou formidável? Você não estava pensando o mesmo a seu respeito?
E o traço é maravilhoso, é quase uma injustiça que uma única pessoa tenha tanto talento para uma e outra coisa. A Verdadeira História do Paraíso é uma Graphic Novel de 1963, publicada na revista O Cruzeiro. Impagável. Assim como impagável é a descrição feita por ele das consequências de sua publicação:
Na primeira página da revista, na qual eu tinha trabalhado 25 anos havia um incrível editorial contra mim, naturalmente não assinado, no qual se dizia que eu tinha publicado a história, dez páginas em quatro cores (!), sem conhecimento da redação, da secretaria e, consequentemente, da direção do semanário. Acho que o fato é inédito na história da imprensa e da pusilanimidade internacional.







