The Jesus & Mary Chain era uma banda dos anos 80. Densa, bela e barulhenta, parecia me expressar melhor que eu mesmo e, por anos, com orgulho, referendei-a como minha banda de coração. Cult na época, hoje apenas obscura. Não resistiu. Fizeram um primeiro disco brilhante, um segundo com variações sensacionais, o terceiro manteve o essencial dos dois primeiros e o quarto trouxe releituras conceituais belíssimas dos três primeiros. Aí não deu mais para enganar, eles faziam sempre a mesma música. O tempo não os perdoou.
Pois outro dia eu lia pela primeira vez um livro que me acompanhou por décadas, intocado. Décadas mesmo. Li “Winnetou” menino, mas não avancei no resto da coleção até outro dia, quando um final de semana no sítio me jogou nas mãos “De Bagdá a Istambul”, um dos exemplares com as aventuras subsequentes de meu herói Mão-de-Ferro. As histórias do velho oeste são três volumes, outros sete são passados no Oriente Médio. Achei que era muita ruptura. Apaches e búfalos são parte do nosso imaginário juvenil, mas muçulmanos e camelos não e não me deixei levar nas tentativas anteriores de leitura. As ilustrações da guarda do livro mostram essa mistureba.
Mas dessa vez acabei me divertindo nas primeiras páginas e animei, encarando capítulo a capítulo, com uma sequência de perseguições, fugas, traições e atos heroicos em meio a desertos e tribos de beduínos. Quando caiu a ficha. Era exatamente o mesmo livro. O Karl May manteve o personagem principal e reescreveu suas histórias mudando apenas as locações e os personagens secundários.
São várias as “cenas” que se repetem. O vilão covarde com múltiplos disfarces e inalcançável, os companheiros valentes mas imprudentes, os inimigos arrogantes mas facilmente ludibriados, os pactos de sangue e amizade, os encontros inverossímeis no meio do deserto (do Novo México ou da Palestina), os prisioneiros salvos graças à astúcia do herói, os bandidos salvos graças à misericórdia do herói. As tribos (de índios e beduínos) sedentas de sangue com líderes cegos pelo orgulho. é tudo igual.
E depois eu me pergunto, como me perguntei aqui, por qual motivo Karl May enfrenta o ostracismo. Oras, o tempo também não perdoou, como não devia mesmo perdoar. E, para piorar, há um ranço proselista e moralista duro de aguentar. Nem prestei atenção, quando menino, mas vê se dá para encarar hoje:
E a luz se faz entre os apaches…
Sua crença não era a nossa. Nós amamos os nossos amigos e odiamos nossos inimigos; ele (nosso herói…), porém, ensinava que amássemos também os nossos inimigos, porque são nossos irmãos. Não aceitávamos esse ensinamento; sua palavra, entretanto, convenceu-nos da pureza de sua doutrina.
E a luz se faz entre os curdos:
Mas de mim te compadeceste. Compreendi tudo palavra por palavra, pois entendo o árabe tão bem como o curdo. Emir (nosso herói…), és um cristão e eu sempre odiei os cristãos; hoje vim a conhecê-los, porém, melhor. Queres ser meu amigo e irmão?
E um grego se perde, em Constantinopla
Em vista disso, encarreguei o barbeiro de estar sempre alerta e assim que o avistasse dar-me conhecimento. Provi-o de uma pequena soma em dinheiro e despedi-me; mas ainda não havia deixado o tristíssimo local, já ele se achava com os jogadores de azar a perder parte daquela soma; o resto gastá-lo-ia talvez em ópio. Considerei o homem desde logo física e moralmente perdido, contundo não desisti de empreender ainda alguma cousa a ver se o afastava do mau caminho.
Mas um ferreiro é salvo, em La Grange, Texas
Oh! Como não?! O senhor salvou-me. Estava de sorte e me ganhou a metade do que eu perdera. Chamou-me de lado, devolveu-me o dinheiro e conseguiu de mim, em troca de tanta generosidade, a promessa formal de nunca mais jogar e renunciar para sempre ao prazer do ópio. Fiz-lhe a promessa e cumpri à risca, embora de começo isso me fosse duro. O senhor é o meu salvador, repito-o.










