Os dois ficam naquela prateleira dos livros que eu faço de conta que estão ali por acaso, mas na verdade quero que as outras pessoas vejam. Os dois detonados, lavoura tem até durex, o outro já veio velho, comprei num sebo, era muito difícil achar o Chacal até outro dia. E eu gosto bastante dele, mas leva uma surra.
Diz Raduan:
Desde minha fuga, era calando minha revolta (tinha contundência o meu silêncio! tinha textura a minha raiva!) que eu, a cada passo, me distanciava lá da fazenda, e se acaso distraído eu perguntasse “para onde estamos indo?” – não importava que eu, erguendo os olhos, alcançasse paisagens muito novas, quem sabe menos ásperas, não importava que eu, caminhando, me conduzisse para regiões cada vez mais afastadas, pois haveria de ouvir claramente de meus anseios um juízo rígido, era um cascalho, um osso rigoroso, desprovido de qualquer dúvida: “estamos indo sempre para casa”.
Diz Chacal:
O jovem aluno de mestrado de astrofísica ficava revoltado. Tanta menina inteligente, com quem ele poderia passar horas conversando sobre aipos e nabos criados em canil e em vez disso, tinha que aturar aquela hipopótama de ignorância. Mas como era reconfortante recostar o crânio no colo dela. Ela sabia ser meiga e ligeira. Sílvia Souza era insuperável quando afônica. Flávio Júnior sabia das limitações da namorada e fazia tudo para não magoá-la.