Um vacilão ou outro a gente sempre dá. Tipo “Não se lê memórias em busca de aventuras da linguagem, mas sim das aventuras do autor”. Pedro Nava e Bukowski dividiam ali um cantinho na estante e, pudessem, protestariam. Ambos têm um cuidado todo peculiar com o texto. Nava é obssessivo. Deve ter escrito, sei lá, umas três mil páginas de memórias. Li quase todas, um abraço para a minha Tia Lilá, mas só tenho o quarto volume, Beira-Mar. É o dos tempos de aluno da escola de medicina, nos idos de 1920, em Belo Horizonte. Sua construção é claramente subordinada a um estilo e a uma tradição. Fazia questão de escrever “bem”, como escreviam seus amigos literatos e modernos de referência. Conseguia, muitas vezes.
Bukowski também é preocupado com a tradição e, nos contos autobiográficos do Fabulário Geral do Delírio Cotidiano, faz questão de xingar quase todos os autores que a América produziu em cinco séculos de história. Mas seu texto não é determinado por um estilo. Ele busca fazer da linguagem uma expressão da vida e cotidiano do personagem que encarnou e viveu. É um texto fragmentado, coloquial, cheio de BERROS e ausências. Mas não é descuidado. Me encantou, quando eu tinha 16 anos. Aos 38, ainda aprecio a ironia, o (mau) humor e o despudor. Mas às vezes, me pergunto se não estou lendo as memórias de uma caricatura.
BUKOWSKI E AS MULHERES
Levantei, cheguei perto da mãe da noiva, ergui-lhe a saia até as coxas, beijei depressa os joelhos bonitos e comecei a abrir caminho com a língua. A luz das velas propiciava. Tudo. – Ei! – acordou, de repente, – que que você pensa que está fazendo? – Vou te foder até arrancar as tripas, vou te foder até te arrancar merda do rabo! Que que acha da idéia? Ela me empurrou e caí de costas no tapete. Depois estiquei o corpo, me debatendo, tentando levantar. – Amazona de merda! – gritei-lhe.
NAVA E A MULHER
Devorava-a com os olhos e ela passava com os seus longe postados, glaucos, vazios, vagos como a fímbria esbatida do ceoceano quando sol começa a inclinar-se de leve, depois de cintilar no zênite. Daí por diante posso descrever não sei quantos dos nossos encontros. Eu tinha às vezes a noção de que não estava vendo uma pessoa, mas um retrato, um quadro e que aquela visão de segundos devia entrar no sempre e ser inesquecível. E eu guardei assim uma série de seus retratos. Sob as árvores da Afonso Pena na dourada manhã de Belo Horizonte.

Uma das melhores coisas da Rolling Stone brasileira é a seção Arquivo RS, com entrevistas e matérias históricas da Rolling Stone americana. Na edição de junho, tem uma com Charles Bukowski, de 1978, que capta perfeitamente a personalidade/caricatura que ele havia se tornado. Em certo momento, Bukowski diz ao repórter que havia comido uma moça horas antes, no sofá em que ele, jornalista, estava sentado, no bangalô do poeta. E comenta que as moças gostam muito de poetas e que se ele soubesse disso antes não teria começado a escrever poesia só aos 35 anos. Ele também conta que, mais jovem, quase morreu de úlcera hemorrágica por causa de abuso de álcool e que os médicos o proibiram de chegar perto de uma garrafa de qualquer coisa alcoólica dali em diante. E o que o nosso herói fez no dia em que recebeu alta (segundo ele, claro)? Sentou no primeiro boteco e encheu a cara.
Ainda durante a entrevista, Bukowski atende o telefone e comenta com a pessoa do outro lado da linha que não pode sair naquele momento porque está dando uma entrevista e dizendo um monte de mentiras ao repórter. “E acho que ele está acreditando, viu?”, completa.
Um personagem fascinante o Bukowski. Lendo a entrevista, senti uma vontade danada de ser como ele, mesmo sabendo que era só uma caricatura.
[...] naprateleira Doonesbury fez mais pelo meu entendimento da América do que, sei lá, os livros do Bukowski e do Melville juntos. Bem, talvez não tudo isso. Mas não há análise igual do dia-a-dia dos [...]