Estou procurando um poema engraçadinho que termina mais ou menos assim: “Ah, meu amor, me chame de Rimbaud”. Há dias na cabeça, igual música grudenta. Eu tinha certeza que era do Marcelo Dolabela. Mas não achei no Radicais e nem no Amônia, os dois sensacionais. O único problema do Dolabela é ser inteligente em excesso, exigindo chaves demais para abrir alguns poemas. Mas, ainda assim, bárbaros. Olhei o Taquicardias, uma coletânea com o espírito da coisa. Não estava lá, e nem no Retrato de Época, uma tese sobre poesia marginal, com centenas de exemplos. Achei que eu já havia misturado demais as coisas e perdido muito tempo atrás de um poema mequetrefe. O Chacal não era. Fiquei meio na dúvida e me voltei para o suspeito de sempre: Leminski. Isso já era dois dias depois. Não estava no La Vie en Close e nem qualquer outro da estante (sempre um prazer, ler e reler, reler e ler). Me veio essa iluminação, só pode estar no Distraídos Venceremos. Que sumiu. Sumiu umas três ou quatro vezes na minha vida, é o livro que mais perdi, já falei sobre isso. Então, três dias depois do início da caçada, baixei na internet um pirata do distraídos, só para conferir. Uma alegria esse breve reencontro, preciso comprar de novo, urgentemente. Mas não está lá. E a coisa não desgruda. Quem me ajuda? Enquanto isso, confiram um dolabela versus leminski.
Dolabela & Rimbaud:
FLEURS DU MAL não existe propriamente a fatalidade existe o vacilo toda paixão gigante na realidade só tem bacilo
Leminski & Rimbaud:
M, DE MEMÓRIA Os livros sabem de cor
milhares de poemas.
Que memória!
Lembrar, assim, vale a pena.
Vale a pena o desperdício,
Ulisses voltou de Tróia,
assim como Dante disse,
o céu não vale uma história.
Um dia, o diabo veio
seduzir um doutor Fausto.
Byron era verdadeiro.
Fernando, pessoa, era falso.
Mallarmé era tão pálido,
mais parecia uma página.
Rimbaud se mandou pra África,
Hemingway de miragens.
Os livros sabem de tudo.
Já sabem deste dilema.
Só não sabem que, no fundo,
ler não passa de uma lenda.
O idiota aqui foi no Google, buscou pela frase exata e achou o quê? O Na Estante, claro. E agora vou ficar com isso na cabeça também. Eu procuraria numa daquelas revistas Fahrenheit 451, lembra? Tenho uma ou duas em casa, mas numa pasta num fundo de armário difícil de vasculhar sem tirar tudo do lugar.
Só pra me vingar: não tinha um também que falava “Ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de Baudelaire”?
Será o mesmo poema?
Será que é o mesmo? Me lembro mesmo desse do ninguém me ama, mas da onde? Vou checar a Fahrenheit.
Eu acabei de checar a Fahrenheit número 1, a única que tenho, e não está lá. Não está mesmo no “Taquicardias”, também chequei, não está no “Distraídos Venceremos” (eu tenho, ou melhor, a Mariana tem, presente seu, lembra?). Não está também no “Sabor Plástico”, livro magnífico do Raimundo Nonato, poeta marginal da BH dos 80’s. Tenho um xerox do original, que devia ser mimeógrafo (que coisa mais anos 80, um xerox do mimeo). Que raio de poema é esse? Se bem que tive uma idéia, vamos ver se dá certo.
Passei por aqui por acaso, mas o desafio do Google me despertou…não sei se é esse que vc procurava, porque o Rimbaud aqui tá bem no meio (junto,aliás, com o Baudelaire).
Em todo caso, tá aqui:
http://eduardoaffonsohistoriapoesiaetudo.blogspot.com/2009/02/arquivo-morto-poemas.html
Ideário Amoroso
Um amor. Taí algo bom e inatingível. A lua está lá na dela, longe. Um amor necessário. Sem ficar dissecando sapos, do tipo que aprendeu na escola, ou disseram que homem é tudo igual e achou bonito de dizer. Um amor sem pressa, exageros, cólera e creme nívea. Daqueles que só existem coabitando com o mundo, mas não levando o mundo para cama. Eta amor difícil! Vai ver está procurando também e por um tantinho desencontrou, perdeu o metrô, o tempo, a vida toda esperando. Um amor, um leque de papel chinês. A mão direita acenando. A mão esquerda rebolando os quadris, para manter tudo quente, neste caso, um amor para sempre. Um amor. Um amor qualquer, que me chame de Rimbaud, de Baudelaire, do nome que convier. Daria tudo para ter um amor assim. Um amor. Um amor vagabundo vestido de páginas clássicas, encantamento, cores, arrepios, e preces para durar enquanto o sândalo rastilhe a dignidade do ar. Um amor. Um amor pensado levemente quando ausente. Um amor que guarde segredos. Um amor que revele a si mesmo como um caminho escolhido por vocação do prazer. Um amor que leia o olhar e tire os óculos d’alma para enxergar sem preconceito, sem o massacrante racionalismo materialista , que seja receptivo como a flor diante da abelha. Uma amor que cante como uma Maria Louca renovando a esperança quando acorda para um nono dia. Um amor que erre, fracasse e nunca passe pela vergonha de se acomodar. Um amor que tente encontrar uma solução para tanto desamor, que não cesse de brilhar e creia na verdade intuitiva dos bichos. Um amor que comemore a vida e despreze a culpa, que use a atenção para evitar as armadilhas ilusórias do capital. Um amor produtivo que faça como meta a cooperação. Um amor simples como beber água nas conchas das mãos. Um amor que seja digno da palavra. Um amor que tire a máscara e vá dançar um tango. Um amor que goste de caminhar. Um amor que mereça os passos do homem na lua. Um amor que traga o araudite para consertar a lira mágica de Orfeu. Um amor cuja a única virtude seja ter as mãos vazias. Um amor para aplaudir quem sonha por sua chegada.
Acho que a busca continua. Me lembro que o poema era curto, tipo curtinho, e mais despojado. O proponente me parece um outro poeta influenciado pelo mesmo poema. “Um amor qualquer, que me chame de Rimbaud, de Baudelaire, do nome que convier.” Quem sabe ele comparece.
…Ih, se não é esse não vou achar no google…
Dei todo tipo de busca no google e, como não achei, e o google é tipo o oráculo final, comecei a desconfiar que o poema não existe e eu é que viajei. Se algum dia ele aparecer, acho que a primeira coisa que vou fazer é abrir uma página só para ele, tirando-o do limbo da internet.
Conhecem o samba-canção, de Antônio Maria: “Ninguém me ama, ninguém me quer/ninguém me chama de meu amor/…” e vai por aí…? Já ouviram? Pois é, o próprio Maria se autoparodiou, em alguma madrugada em que ouviu alguém tocando e cantando mais uma vez seu samba-canção, e mandou, melancólico e irônico, como só ele próprio sabia ser:”Ninguém me ama, ninguém me quer/ninguém me chama de Baudelaire./…” E tinha que ser o Maria, que, sem dúvida beberia muitas com todo esse povo aí citado.
Historinha contada a mim pelos meus pais, mas está em Antônio Maria, do Joaquim Ferreira dos Santos,dos Perfis do Rio.
Olá Myrian,
isso explica definitivamente o “ninguém me chama de Baudelaire” que o Ricardo alertou em um dos primeiros comentários, mas não o “ah, meu amor, me chame de Rimbaud”, que é o meu graal das inutilidades poéticas. Gosto muito do texto do Joaquim Ferreira dos Santos, mas não li o perfil do Antônio Maria, vou por na lista. Obrigado pela dica.
Oi,Guilherme,
pensei em…que tal olhar em Nicolas Behr? Tem o Poema Pau-Brasília. Não tenho a obra do Behr comigo, mas sua pesquisa me coloca o nome dele a toda hora.
Tenho o Iogurte com Farinha em algum lugar, vou checar e dou notícia. Valeu.
Isso pega, isso de ficar com a frase, o verso ficar grudado?
Não é que achei no I-google-ching… no Google Livros, com a tal frase posta na pesquisa: deu Marcus Vinícius de Faria: “Armadilha para hábil caçador, pegar o bicho o quanto antes”, cita apenas :”2 doidos na manhâ vomitando vomitando ah meu amor me chame de Rimbaud! …” não tem visualização disponível do livro, diz que é da Nt editora…de 1982. E, Guilherme, quando puder, poste para mim o poema engraçadinho…fiquei com ele grudado também, já está quase virando em outra coisa. Acabo cometendo um “poema” que podia terminar assim:
…..
E o cara da porta, na lata:
_Arre, meu amô, então me chama lá o Rimbaud!
Gostei da brincadeira.
Abraço,
Myrian
Matou a charada, Myrian, e merece um post completo em sua homenagem. É o dos dois doidos na manhã, me lembro com toda certeza. Eu lia o Marcus Vinicius, lá no final da década de 80, acho até que ele está no Taquicardias, mas não esse poema. Tenho de descobrir em que papel li. Valeu tudo.