Nietzsche estudava filosofia mas fazia umas disciplinas na comunicação. Uma ótima pessoa, o Fred. Era também ator. Interpretou o pensador alemão em uma peça, aproveitou a coincidência do primeiro nome e incorporou o personagem por vários semestres. Acalentou um bigode espetacular, que valorizou a freira despudorada de uma de suas montagens posteriores.
Estou lendo Quando Nietzsche chorou e fico de olho no bigode. É tipo um elemento narrativo usado pelo autor para marcar momentos “dramáticos” da trama. A coisa pega quando o bigode de Nietzsche aparece. É um recurso divertido, mas pobre. O livro tem um verniz nobre, com seus personagens históricos cruzando Viena em fiacres e discutindo o sentido da vida. Mas debaixo do verniz é quase uma obra de auto ajuda: diálogos didáticos, mensagem edificante, encadeamento simplório. Como diria o célebre filósofo contemporâneo Besserman Vianna, o Bussunda, o livro autoajudou o autor a ficar mais rico. Vide a série de títulos lançados na sequência pelo mesmo Irvin Yalom. Espero não encontrar nenhuma iluminação no final. Queria encontrar mesmo era o velho Fred, que, pelo que soube, largou a filosofia, mas não o bigode, e foi viver em Trancoso.
O eterno retorno do bigode
- Sim, o eterno retorno significa que, cada vez que você escolhe uma ação, deve estar disposto a escolhê-la por toda a eternidade. O mesmo se dá com cada ação não realizada, cada pensamento natimorto. Toda a vida não vivida ficará latejando dentro de você, invivida por toda a eternidade. Breuer se sentiu zonzo; era difícil escutar. Tentou se concentrar no imenso bigode de Nietzsche subindo e descendo a cada palavra. Como a boca e os lábios de Nietzsche estavam inteiramente encobertos, Breuer não conseguiu antever as palavras por vir.