Tenho uma prateleira com livros nunca lidos e dispostos estrategicamente para infundir nos visitantes a admiração pelo meu sofisticado intelecto. É verdade e sinto vergonha, mas não muita. Sempre gostei da coleção Os Pensadores. Na faculdade era essencial, com os textos originais dos nossos filósofos, economistas e sociólogos de referência. Tinha esse sonho de um dia ter todos, realizado com o relançamento, há uns três ou quatro anos. Mas lá pelo décimo primeiro volume a ficha caiu. Numa casa sem universitários, para que prestariam a Sexta Investigação Lógica, de Husserl, ou o Tratado sobre os Princípios do Conhecimento Humano, de Berkeley? Ficou claro que a função de várias obras era fazer bonito na prateleira e o objetivo da coleção não outro senão combinar com a mobília, vendendo horrores há décadas por este exato motivo. Resolvi que os editores mereciam os parabéns e, de fato, o conjunto ficou muito bem instalado em uma estante logo acima dos livros de cabeceira. Pena que nem todo mundo que vem aqui vê, mas considero razoável o custo benefício. O dinheiro poderia ter sido investido em um George Foreman Grill…

Grelhado, demasiadamente grelhado
Esta semana abri, pela primeira vez, o livro do Nietzche, incentivado pelas aventuras do post anterior. Já tinha enfrentado Assim Falou Zaratrusta, no passado, sem vitórias. Filosofia exige tempo e entrega, e a concorrência é desleal. Também não fui feliz dessa vez. Deixo esse trecho do meu bigode favorito como incentivo para novas tentativas.
Mil veredas há, que nunca foram andadas, mil saúdes e ilhas escondidas da vida. Inesgotados e inexplorados estão ainda o homem e a terra do homem.
Vigiai e escutai, ó solitários! Do futuro chegam ventos com misteriosas batidas de asa; e para ouvidos finos há boa notícia.
“Os Pensadores” vão ficar para os filhos quando eles estiverem na universidade. A coleção do meu pai serviu bem mais a mim e minha irmã do que a ele, certamente. Aliás, é incrível como nos anos 70 ou 80 havia uma mania por fascículos, alguns bem sofisticados, como “Os Pensadores” ou as coleções de LPs de jazz e MPB da Editora Abril. Outros, nem tanto, como os disquinhos com historinhas infantis da Disney. Entre eles, um bocado de enciclopédias. Só eu e minha irmã dividimos umas dez coleções quando aconteceu de morarmos em casas diferentes.
E, em tempo, a montagem do Nieztsche com o George Foreman é magnífica.
Houve, de fato, uma época de ouro dos fascículos da Editora Abril, e também meu pai costuma acompanhar algumas coleções. O pouco que li dos clássicos – Homero, Dante, Proust, Shakespeare, Voltaire, Dostoievski, Gorki… – se deve a uma dessas coleções de capa dura que adornavam a sala, e cuja isca das filigranas douradas nas lombadas eu mordi com gosto. Ainda há pouco terminei de reler um desses, “As aventuras do Sr. Pickwick”, de Charles Dickens, que é um livro divertido e atual, apesar da tradução, que tem mais de 90 anos e emprega portanto outra língua, com coisas como “à socapa”, “caviloso”, “timorato”, “réprobo”, “aldrabadas” etc.
A coleção “Os Pensadores” é, para mim, floresta amazônica, mata fechada, intransponível. Só tive algum sucesso com o volume que prefacia a coleção “A História da Filosofia”, de Will Durant, que sob a fachada de uma “Filosofia for Dummies”, esconde quase 500 páginas em corpo 7, de Platão a Santayana. É como você disse, exige tempo e entrega, e a concorrência é desleal.
É a expressão da abundância propiciada pela indústria gráfica aí pelas décadas passadas. A ilusão da cultura por módicos preços. Às vezes nem tanto ilusão, outras nada módicas, mas a idéia é essa. E agora, com acesso ilimitado?