Viajo das cidades dos leais amigos e das mães de corpos mais belos às cidades malditas, habitadas por mudas criaturas verdes, de lábios moles caídos e curiosas orelhas. É o trajeto dos vizinhos de estante Walt Whitman e H.P. Lovecraft.

Habitantes de Ib visitam a Nova York de Walt Whitman
O primeiro é um dos poetas mais bacanas. O segundo eu reli esta semana depois de conhecer um site que discutia seus contos seriamente. Seriamente no sentido de ensinar rituais para invocar o Grande Cthulhu. Lovecraft escrevia histórias de terror, boas e básicas histórias de terror, publicadas em revistas pulp fiction do início do século passado. Assim como seus colegas da ficção científica, expressava mais as angústias do presente do que visões do futuro ou do passado remoto. Em A Maldição de Sarnath, as cidades são impessoais, sujas e perigosas. Mesmo situadas “há dez mil anos, nas margens de um vasto lago de águas paradas na terra de Mnar” ou “no deserto da Arábia, com suas paredes baixas quase cobertas pela areia de incontáveis eras” elas evocam sensações muito conhecidas de um morador de Nova York, como medo e repulsa. Os dois moraram na Grande Maçã, com algumas décadas de diferença, mas as cidades do superpoetabarbudo são outras. Walt Whitman é muito querido pelos americanos e por vários dos meus poetas preferidos. É uma outra onda. Suas cidades são sereias – aprazíveis lugares de descanso tentando os destinados a viver on the road – ou espaços idealizados ocupados por homens e mulheres livres.
Visite a grande cidade, de Walt Whitman:
Onde se vê a cidade com a mais encorpada geração de oradores e bardos,
onde se vê a cidade que é por eles amada e por seu lado os compreende e ama,
onde com leis só vagamente se preocupam os homens e as mulheres…
… onde fica a cidade dos mais leais amigos,
onde fica a cidade dos mais sadios pais, onde fica a cidade das mães de corpos mais belos:
é aí que cresce a grande cidade.
Visite Ib, de H.P. Lovecraft
Conta-se que em tempos imemorais, quando o mundo era jovem, antes mesmo de os homens de Sarnath chegarem à terra de Mnar, havia outra cidade às margens do lago, a cidade de pedra cinzenta de Ib, tão antiga quanto o próprio lago, a cidade habitada por criaturas de aspecto desagradável. Eram estranhas e feias, como aliás a maioria das criaturas de um mundo ainda incipiente e toscamente organizado.