Minha vó louca dormia no quarto ao lado. O Parkinson fritou o cérebro dela e, além da demência, tinha alucinações terríveis, não sei se devido a doença ou aos remédios. Ela me chamava de Ricardo, nome do seu filho caçula, e ralhava comigo, muito brava, sabe-se lá o motivo. Eu achava carinhoso.
A casa acabou se adaptando, mas foi difícil para a minha mãe. Eu e minhas irmãs nos relacionávamos de diferentes modos com a sua demencia, mas sempre com nossos pais no meio de campo. A falta dessa mediação deve ser aterradora para uma criança e é essa, acredito, a beleza de kaddish.

Schiele teve um pai doido
Aos 12, pobre, num subúrbio de Nova Jersey, Ginsberg segurou sozinho a onda de uma sequência de surtos da mãe. Transformou tudo em poesia, há exatos 50 anos. Já tinha lido várias vezes, mas sempre considerei “aquele outro poema do livro do Uivo”. Mas ontem reli e foi um desses momentos de iluminação.
Há ritmo, e ele é rápido, muita sonoridade e, é claro, eventualmente, aquele jorro doidão de imagens. A pior poesia da humanidade produzida nesses últimos 50 anos foi inspirada nesse conceito, um karma que Ginsberg vai carregar pela eternidade. Mas aqui vida e poesia andam juntas e a expressão individual não é maçante, desconexa, aflita ou dependente de empatia com o leitor. Pelo contrário. Sem a obssessão em fazer teses dos versos, kaddish é uma experiência libertadora e tocante.
III
Só por não esquecer o começo quando ela bebeu refrigerantes baratos nos necrotérios de Newark, Só por tê-la visto chorar nas mesas cinzentas dos longos pavilhões do seu universo Só por ter conhecido suas idéias malucas de Hitler na porta, os fios na sua cabeça, as três grandes varas
marretadas nas suas costas, as vozes do forro berrando por causa das suas feias trepadas cedo por 30 anos,
só por ter visto os saltos no tempo, a memória apagar-se, o troar das guerras, o rugido e o silêncio de um imenso choque elétrico,
só por tê-la visto pintar grosseiros quadros de trens correndo por cima dos telhados do Bronx
seus irmãos mortos em Riverside ou Rússia, sua solidão em Long Island escrevendo uma carta perdida – e sua imagem na luz do sol na janela
“A chave está na luz do sol na janela nas grades a chave está na luz do sol”,
só por ter chegado até aquela noite escura do ataque numa cama de ferro enquanto o sol se punha em Long Island
e lá fora o vasto Atlântico rugia o grande clamor do Ser para si mesmo para retornar ao Pesadelo – criação dividida – com sua cabeça pousada num travesseiro de hospital para morrer – num último relance – toda a terra uma Luz perene na familiar escuridão – nada de lágrimas por causa dessa visão – Mas a chave devia ser deixada para trás – na janela – a chave na luz do sol – para os vivos – que podem receber
* enquanto escrevia esse post vi Allan Ginsberg em dois divertidos clipes, aqui, no blogue irmão.
** a tradução de Kaddish é de Cláudio Willer, que mantém o perene e bacana Agulha.
“Uivo” me atravessa como poucos textos. E este também é interessante. Enquanto leio, escrevo sobre a Gang 90 (em breve no blog irmão) e acho que tem tudo a ver.
Putz, consegui uma edição do Uivo e do Kaddish em inglês. Você tem que ler. Tem velocidade própria.
Sempre que lembro de Ginsberg eu lembro de Bob Dylan. Outro mestre.