Meu escritor amargo preferido é o Caio Fernando Abreu. Li muito aos vinte e poucos, quando eu fazia o tipo a-vida-já-me-ensinou-o-que-tinha-para-ensinar. Ou a-vida-me-fez-durão-baby-mas-você-pode-tentar. Ou melhor ainda, a-vida-não-tem-mais-nada-a-oferecer-e-por-isso-me-visto-de-preto. Conheci essas construções compridas com hífen nos livros dele e sempre gostei de usá-las. Lá também estão as frases incompletas, os personagens sem nome e sem rumo, as situações apenas insinuadas e o clima geral de claustrofobia e desesperança.

Um Quino bem ao espírito da época
Um clima compartilhado por muita gente aí na virada dos 70 para os 80. Como o Piroli, origem dessa primavera da amargura, ou o Ivan Ângelo, com sua festa que não houve, e dezenas de outros cansados de quase 20 anos de ditadura, cercados por novas favelas num país falido. Pior ainda para o Caio, um filho da contracultura que não sobreviveu ao fim do sonho. Em muitos de seus contos há essa tentativa de expressar a geração, e eles são bons, mas me pareceram datados, agora que os reli. Outros são muito mais confessionais, e melhores. Os dois:
Quando acordou, o sol já não batia no terraço, o que trocado em miúdos significava algo assim como mais-de-duas-da-tarde. Tinha tomado três compridos, um pela manhã, outro pelo almoço, outro antes de dormir, só que juntos – e o gosto persistia na boca. Strawberry, pensou, e quis então, como antigamente, ouvir outra vez os Beatles, mas ainda na cama teve preguiça de dar dois passos até o toca-discos, e onde andariam agora, perdidos entre tantas simones e donas summers, tanto mas tanto tempo, nem gostava mais de maconha. Acariciou o pau murcho, com a vontade longe, querendo mandar parar aquele silêncio de apartamento vazio, a empregada não viria, ele não tinha colocado gasolina no carro, nem descontado cheque, nem batalhado uma trepada, nem tomado nenhuma dessas providências-de-sexta-feira-após-o-almoço, e precisava. Precisava inventar um dia inteiro, ou dois, porque amanhã é domingo e segunda-feira ninguém sabe – o que? (Morangos Mofados)
E procuro então, ao invés do escuro, trazer de volta certa claridade, e dentro dela a face, o jeito, quem sabe mesmo a voz ou o cheiro que o outro teve quando ocupou o segundo quarto e, de certa forma, também um determinado espaço nisso que, talvez impreciso, costumo chamar de: a minha vida. Nunco consigo. Quando toco, depois, no meu próprio rosto e, no limite dos dedos, percebo sulcos fundos ou bruscas protuberâncias na superfície da pele, pergunto se não teriam nascido ou pelo menos começado a afundar depois daquela partida. Parece-me agora, tanto tempo depois, que as partidas-dolorosas, as amargas-separações, as perdas-irreparáveis costumar lavrar assim o rosto dos que ficam. E do buraco negro da memória que ocupa agora o espaço anteriormente ocupado por essa pessoa – sim, era uma pessoa que não lembro -, ao invés de faces, jeitos, vozes, nomes, cheiros, formas, chegam-me somente emoções confusas ou palavras como essas: doloroso, amargo, irreparável. (Triângulo das Águas)
Acabou de sair uma biografia dele por uma colega jornalista, pela Editora Record. Vc viu?
Bjs
Não sabia, valeu a dica Valéria.