Nos livros de Bukowski e Fante mulher não tem bunda, tem rabo. Rabos paradisíacos, rabos apocalípticos, rabos desafiadores. Gosto dos dois autores, pelos mesmos motivos. É uma outra América ali. Vulgar, patética, hostil. Do tsunami provocado pela instalação de uma mísera tomada aqui no escritório emergiram juntos, vejam que coincidência, Misto Quente e Sonhos de Bunker Hill. A infância de Henry Chinaski e a juventude de Arturo Bandini. Dois velhos companheiros. Eu mal me lembrava das primeiras desventuras de Bandini em Los Angeles e me pergunto se o Guto ainda guarda seu exemplar de Pergunte ao pó, esse sim inesquecível. Peguei emprestado lá no pátio do Coltec, em alguma primavera de milnovecentoseoitentaetantos, e devolvi. Se sumiu, não fui eu. Meu Misto Quente é da mesma época e é o que eu mais gosto do Bukowski. Estou usando para guardar a papelada juntada para a declaração do imposto de renda, considero isso tipo uma homenagem. Pobre Chinaski, virou uma caricatura dele mesmo nos sucessivos contos publicados ao longo dos anos. Já reclamei aqui. Mas neste livro ele é um personagem único. Ele e seus primeiros rabos.
Chinaski e o rabo indelével
“Uma mulher veio andando pela rua na minha direção. Tinha pernas ótimas. Primeiro eu olhei ela nos olhos, depois nas suas pernas e, assim que passou, olhei seu rabo, lambi aquela bunda. Memorizei aquele traseiro e as costuras de suas meias de seda. Eu nunca faria aquilo sem as minhas ataduras.”
Bandini e o rabo paradisíaco
“Eu estava sentada na varanda lendo Melville quando o carro surgiu. Era um Ford Modelo-A, e o motorista era uma garota. Ela parou a máquina e desceu. Olhei para a praia. O Duque não estava a vista. A garota atravessou até a varanda dele e bateu na porta. Era maravilhosa, vestida numa mini-saia azul e num suéter azul. Seu rabo era do paraíso. Seu rosto era exoticamente fino sob a franja dos cabelos pretos e olhos brilhantes.”

rs…rs… li e lembrei aqui com pesar do meu exemplar de misto-quente. eu o emprestei uma vez e a pessoa nunca devolveu, mesmo eu insistindo, que raiva! ainda por cima tinha uma dedicatória ótima, a pessoa que me deu ele escreveu algo assim: um pouco de coisa tosca na sua doçura! curto mto o Buwovsky/Chinaski!