Pois bem, morreu o Piva, coitado. Morreu há meses, descobri ao iniciar o post, naquela pesquisa básica. Bem, não era nenhum Drummond, para dar no Jornal Nacional. Tanto é que, assim, aqui tudo começa. Lá no passado que agora me parece distante, num plantão de fim de ano de redação, na feirinha dos rejeitados que o pessoal do caderno de Cultura fazia para esvaziar as estantes, eu catei o que seria um belíssimo livro de ensaios do meu poeta querido. A feirinha era assim, um salve-se quem puder, não dava para ficar escolhendo demais ou o que era bom sumia. Eu peguei uma coletânea passável do Manoel Bandeira, daquelas de banca de jornal, e o Piva. Grosso e bonito. Chamava-se Contemporâneo de mim (?!).
Só que o Piva não era Piva, era Piza. Era o Daniel Piza. Sei lá se eu estava lesado ou o quê, mas não lia o Piva há uma data e, na confusão, tipo querendo me dar bem, tipo achando que era o foda para resgatar uma pérola no mar de autoajuda&gestão&iluminaçõesespirituais, vi lá um livro grandão e bem editado e resolvi que o Roberto Piva era o Daniel Piza.
Daniel quem? Prazer, o Piza é um jornalista e o livro uma coletânea de artigos. Como todo bom jornalista, fica à vontade para se expressar, com autoridade, sobre todos os aspectos da existência humana. Percebida a mancada, encostei o livro. Até outro dia, quando precisei de espaço na estante e peguei o calhamaço com o firme propósito de enviá-lo para o quartinho dos fundos, junto com a tábua de passar roupa, os vestidos de festa da Viviane e a coleção do Jorge Amado que é boa demais para ser jogada fora mas grande demais para ficar na estante. Mas, a caminho do exílio, li um artigo sobre best sellers, um artigo sagaz.
O artigo salvou o livro do destino inglório e suas variadas considerações serão objeto de um post futuro. O importante é que passei a olhar os best sellers de maneira diferente e, ainda melhor, ganhei algumas referências para saborear os absolutamente não best sellers. Como o próprio Piva, que é tipo a própria antimatéria das listas dos mais vendidos. É uma poesia irada, viva e inaplicável.
Três poemas:
cruzo avenidas insones & corroídas de chuva minha mão alcança minha dor presente & me preparo para um dia duro amargo& pegajoso a tarde desaba seu azul sobre os telhados do mundo você não veio ao nosso encontro & eu morro um pouco & me encontro só numa cidade de muros você talvez não saiba do ritual do amor como uma fonte a água que corre não correrá jamais a mesma até o poente minha dor é um anjo ferido de morte…
mestre Murilo Mendes tua poesia são os sapatos de abóboras que eu calço…
nestes dias de verão.
negócio de bruxas.
o sol caía na marmita do adolescente da lavanderia. você veria isto com seu olhar silvestre. um murro bem dado no vitral que eu mais adoro.
Assim não dá meu tesão eu começo a sonhar com você todas as tardes & você lá em Santos comendo amendoim vendo anjos nas cebolas do mercado navios entram & saem do porto polidos eu corto as veias & rego meu queijo de Minas você me ama eu sei & e me envaideço amoras jorram a beleza anarquista de suas coxas molhadas o peixe-espada pode lhe declarar amor eu penso nessas ilhas perfumadas mas o caminho de volta eu só conto a esse urubu em carne viva que grasna na sacada.

salve o Pisa ou Piza ou Piva (isso dá quase um trava lingua!) … enfim, ficou na estante de dentro merecidamente!