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Otário

Paguei R$ 25 para encadernar meu Jangada de Pedra, na Leitura um novo sai por R$ 21,50. Otário. Mas é isso mesmo, não queria um novo, queria minha sebenta e desfolhada edição ressuscitada em capa dura, com a garantia de outras décadas de uso. E mais, só nessa rara edição tem um asterisco no alto da página 258 e, no meio, sublinhada, em flagrante gesto adolescente, um trecho da minha predileção.

E como este céu daqui amanheceu livre e descoberto, e o sol surgiu sem impedimento de nuvens, e assim se conservou, as filosofias nocturnas dissiparam-se, agora toda a atenção se concentra no bom andamento de Dois Cavalos sobre uma península, tanto faz que ela vogue como não vogue, mesmo que a rota da minha vida me leve a uma estrela, nem por isso fui dispensado de percorrer os caminhos do mundo.

Quando li, a primeira vez, esperava um romance político, a União Européia era uma discussão fresca lá pelos idos do final da década de 1980, e fiquei encantado ao encontrar uma história de amor. Bem bonita. Tem toda a questão política e coisa e tal, que ótimo mesmo ler coisas inteligentes e politicamente instigantes, mas bacana é a história de Joana Carda e José Anaiço e Maria Guavaira e Joaquim Sasso on the road pela petulante península ibérica. Fui reler para escrever os nomes certinhos e achei outro trecho.

Fui nova, e já mal me lembro do tempo em que o fui, e tendo dito inclinou-se para a lareira, para que o lume a mostrasse melhor, olhava Joaquim Sassa por cima da fogueira e era como se estivesse a dizer-lher, É assim que eu sou, repara bem em mim, vieste ter à minha porta agarrado a um fio que estava na minha mão, poderei, se quiser, puxar-te para a minha cama, e tu virás, tenho a certeza, mas bela nunca serei, a não ser que tu me transformes na mais formosa mulher, é obra que só homens são capazes de fazer.

 

Sobras de Uma Combinação, Amanda Duarte, Lisboa

Sobras de Uma Combinação, Amanda Duarte, Lisboa

 

Depois de trocar o espinafre por couve e ajudar Peter Pan e Pedrinho a vencer o marinheiro Popeye, Emília surta e assume a redação de sua biografia, inventando (?) uma viagem a Hollywood para estrelar um filme ao lado de Flor das Alturas, o anjo da asa quebrada que eles trouxeram da viagem ao céu. Parei aqui, faltam umas poucas páginas e nem sei se os meninos vão gostar ou entender esse final biruta. Hollywood? De qualquer forma, Memórias da Emília é realmente ótimo. Mas confirma o complexo de inferioridade (ou mania de grandeza) do Monteiro Lobato, que torna a leitura às vezes cansativa. Eu estava gostando muito de Alice. A pedido do Rei da Inglaterra ela acompanha os meninos britânicos na visita ao anjo e, em seus primeiros momentos, não gosta do sítio. Achei ótimo e coerente com a personagem de Lewis Carroll. Por coincidência, as aventuras no país das maravilhas é o outro livro “em processo”. É o da Laura, enquanto o Memórias da Emília é o do João, e os dois são lidos alternadamente. Pois Alice é isso mesmo, uma menina desconfortável em terras distantes, se adaptando, mas não necessariamente gostando do que vê. Nada mais razoável que expressasse seu desapontamento com o pomar do Pica Pau Amarelo. Pois não é que bastam uns poucos parágrafos para ela, de repente, perceber que o sítio é na verdade o lugar mais maravilhoso do mundo. Ah, que mania do autor, todo mundo tem que achar o sítio espetacular.

Alice carolizada:

“Alice estava torcendo o nariz a tudo e achando que aquele sítio não parecia digno de um anjinho. “Uma casa velha, estar árvores tortas por aqui, aquele leitão lá longe nos espiando, então isto lá é morada digna de um anjinho caído do céu?”

Alice lobatizada:

“Que coisa gostava”, murmurou Alice, “chupar laranja-lima ao lado de um anjinho do céu que conta as coisas de lá! Estou mudando de opinião, Emília. Estou achando que esse sítio de Dona Benta é ainda mais gostoso que o nosso Kensigton Gardens lá de Londres…”

Kensigton Gardens ficou realmente arrasado

Kensigton Gardens ficou realmente arrasado

Depois da série de eventos que culminou com o ex-presidiário redimido me forçando a comprar um sebento exemplar, reli o Conde de Monte Cristo. Esperava compartilhar revelações surpreendentes, mas a verdade é que mal consegui acompanhar o enredo, quanto mais decifrar as leis do universo. O começo é arrebatador. “E agora, o que fará o injustiçado Edmundo com um tesouro nas mãos e o coração sedento por vingança”, nos perguntamos, ao final do XI capítulo. Ele responde: “E agora, que já recompensei os bons, peço ao Deus vingador que me ceda o lugar para castigar os maus.” Muito bom, né? Só que aí fica impossível de acompanhar. Os personagens dos primeiros capítulos mudam de nome para escapar da Justiça, ganham títulos de nobreza, casam-se e as novas famílias fazem parte da trama, com filhos, sobrinhos e cunhados desempenhando papéis cruciais. Edmundo vira o conde, mas tem duas outras identidades secretas, além de asseclas, secretários e apêndices. Um inferno. Lá pelas tantas, já não entedia nada. Emburrei tanto que decidi nem escrever mais sobre o livro. Mas não é que essa semana li uma matéria sobre o lançamento de uma nova tradução, recuperando o original? Ficou com 1300 páginas, o meu não tem nem 300, é fácil imaginar o que foi perdido na tentativa canhestra de resumir o livro. “Corrigiu as contradições e ajustou passagens consideradas confusas”, diz a reportagem. E mais, li no Correio Braziliense, que chega lá na redação e achei que era tipo uma segunda ordem divina de leitura, pois quantos moradores de BH têm o hábito(ou a oportunidade) de lêr um jornal de Brasília? Matéria de Nahima Maciel com um pingue pongue esclarecedor do escritor e tradutor Rodrigo Lacerda. Entendi estar recebendo uma segunda chance para ler, iluminar e dividir. Vingança? Perdão? Dois momentos, não mais confiáveis:

Gostei muito (um fantasma envolvido pela noite…):

“Perdoe-me, Edmundo”, exclamou Mercedes, caindo de joelhos. “Perdoe a uma pobre mulher que ainda o ama! Vingue-se, Edmundo! Mas vingue-se dos culpados! Vingue-se de Fernando. Vingue-se de mim. Mas não se vingue de meu filho! Seria para mim a maior das desgraças: ver o homem a quem amo matar o meu próprio filho!” Monte Cristo sentiu que fôra vencido. “Que espera de mim? Que seu filho não morra? Pois ele viverá. Quanto ao pobre Edmundo, não restará à mulher que o ama muito tempo para amá-lo. Edmundo é um fantasma que será envolvido pela noite.

Não entendi lhufas e, a verdade, haja paciência:

“Senhores”, disse ele, num tom de voz estranhamento firme na boca de um criado, “o Sr. Noirtier de Villefort deseja falar ao Sr. Franz de Quesnel, Barão d’Epinay”. Villefort estremeceu. “Impossível! O Sr. dÉpinay não pode deixar o salão neste momento”. “Neste caso”, concluiu Barrois, “o Sr. Noirtier faz prevenir que virá ao salão”. 

Bad trip aos 11 anos

Depois de ler as obras completas de José de Alencar meus pais resolveram me por na terapia. Eu devia ter uns 11 anos. Hoje, quando falamos sobre o assunto, minha mãe elogia a clínica, meu pai faz cara de flashback e suspira. Não deve ter sido fácil. Leitura é vista como algo positivo e, logo, ler muito é muito positivo. Ler compulsivamente seria tipo excelente. Não é. Não aprendi a jogar bola, tomei recuperação em matemática, engordei. Precisei usar óculos. Ler me tornou um menino esquisito e não tenho nenhuma saudade desses tempos. Fico feliz de ter recebido ajuda profissional, embora não entendesse muito bem, na época, qual seria o problema. Afinal, só ouvia elogios ao precioso hábito e a propaganda era inequívoca: ler é a maior viagem. No caso, uma bad trip aos 11 anos. Na terapia, em grupo, brincávamos, que é obviamente o que eu deveria estar fazendo, naquela idade, em vez de me aprofundar no romantismo nacionalista de José de Alencar (nunca mais reli, se minha memória funciona meu top three é: As Minas de Prata, O Guarani e o pervertido A pata da Gazela). Melhorei com o tempo e sessões três vezes por semana.

Na estante faz um ano

Na estante faz um ano

Há exato um ano comecei esse blog e, às vezes, fico com medo de estar inventando uma história, para mim mesmo, em que os livros são personagens heróicos. Tipo legitimando o discurso do lêr é espetacular, o mesmo discurso que impediu as pessoas à minha volta de reconhecer um menino doente quando toparam com um. Achei bom ter me lembrado disso. Mas, isso também me parece claro, não teria chegado até aqui se a literatura não me trouxesse mais do que leva.

Uma festa por dez real

Eu senti saudades do Pop Pastel quando morei em Londres. De beber cerveja com os amigos naquelas mesas de plástico na Cristóvão Colombo com Fernandes Tourinho. “Ah, o Pop Pastel…”, eu suspirava (é, aos 21 anos eu suspirava), naquele frio desgraçado de Camden Town. Depois de voltar, devo ter ido lá uma ou duas vezes. O lugar só era bom na cidade que eu inventei. Tipo a Belo Horizonte de Ivan Angelo em A Festa, também inventada e desconhecida por mim. Não é a época diferente. Consigo me ver na Beagá da década de 20 de Pedro Nava, mas me senti meio fora dessa conturbada capital em plena ditadura. Mas o livro é muito legal, é tipo um Pulp Fiction engajado e angustiado, já contei essa epifania. (E sinto muito não ter lido até hoje. Quando encaro literatura brasileira dos anos 70 sempre me sinto meio culpado de existir.) Os personagens vão sendo apresentados em histórias que você não sabe se é um conto, um capítulo, uma crônica ou uma divagação. Mistura-se reportagens com diálogos, narrações em pessoas diversas, tudo muito fragmentado e o autor se intromete: “Escrever o quê nesta terra de merda? Tudo que eu começo a escrever me parece um erro, como se estivesse fugindo do assunto.” E não tem a festa, só o antes e o depois, estou contando porque parece que todo mundo já sabe disso. Tudo isso por dez real, comprei na feirinha da Ouvidor, lá no passeio da Savassi, mas vi também na loja aqui da Floresta, outro dia, o mesmo preço. É a décima-segunda edição e, não conheço as outras, mas duvido que alguma tenha uma capa tão feia.

Eram a mesma viagem, a fuga para a África e os anos de poesia e viadagem na Europa. O mesmo impulso nos versos de Uma Estação no Inferno e na vida de aventuras na Etiópia. Mas não é a mesma viagem e nem o mesmo impulso, descubro ao ler Rimbaud na África, de Charles Nicholl. Não devo ter sido o primeiro desinformado a adequar os últimos anos do personagem às minhas expectativas românticas. A verdade é que Rimbaud largou a poesia com raiva e desprezo e foi trabalhar. Trabalhar, trabalhar, ganhar dinheiro, pagar as contas, essas coisas. Fiquei muito confuso. Não sabia se transformava isso em uma lição de moral, do tipo poesia não paga o leite das crianças, ou ignorava a relação entre autor e obra (sempre louvada no caso dele). Mas e se todas as iluminações não passarem de afetação e o verdadeiro Rimbaud for o mal humorado traficante de armas em Djibuti? Não é difícil imaginar o porquê das minhas aflições. E pior, ao escrever este post descobri que Uma estação no Inferno e Iluminações sumiram da estante (há quanto tempo?). 

Rimbaud na França:

Herdo de meus antepassados, os gauleses, os olhos azuis-claros, a fronte estreita, e a falta de jeito para a luta. Sinto que minhas roupas são tão bárbaras quanto as deles. Apenas não unto a cabeleira. Os Gauleses foram esfoladores de animais, queimadores de ervas, os mais inábeis de seu tempo. Deles, eu herdo: a idolatria e o amor ao sacrilégio; – oh! todos os vícios: cólera, luxúria, – magnífica, a luxúria; – sobretudo mentira e preguiça.

Rimbaud em Harar:

 

Rimbaudguns

Rimbaudguns

O merinó azul (uma lã macia como casimira) é ótimo material, assim como a flanela vermelha, e pelo preço que estou propondo você não tem nada a temer, exceto pelas traças se ficar guardado muito tempo, mas no momento está em boas condições… Se aprovar as amostras de fitas douradas, para as selas ou para o clero, por favor, me avise. Incluí igualmente alguns artigos de escritório, mas somente no valor de um táler. 

Noites de dromedário

Li Vale Tudo aos pedaços e devo ter lido tudo, sei lá, a Viviane diz que não. O livro é dela, ela é que sabe. Os pedaços que eu li são tão legais que desconfio que não foi o Nelson Motta quem escreveu. Deve ter dado uma trabalheira e duvido que um jornalista/produtor musical multimilcoisas descolado famoso e rico tenha realmente gasto sola de sapato, ouvido e gravador na produção do livro. Mas a equipe de jovens estagiárias fez um trabalho espetacular. Tanto é que me descobri sabendo muito sobre o Fábio (aí cunhado, aquele abraço) e não posso perder a oportunidade, agora que o blogue irmão Chicletes & gumex desempoeirou uma pérola do rapaz, de repetir a história de uma música que eu gosto. Gosto mesmo. Mesmo sendo o suprasumo do melacueca e coisaetal. Confiram texto e música, com um breve cenas dos capítulos anteriores:

(Em 69, Tim Maia está passando fome, mas Roberto Carlos gravou a sua Não vou ficar e ele animou a tentar, de novo, a vida na zona sul do Rio. Vai parar no dromedário, o sofá da casa de Fábio, no Botafogo (aí cunhado, no Botafogo). Fábio é o sucesso do momento e ajudou no que pode, até pediu a umas fãs mais liberais para dar uma força ao amigo. Elas não deram. Deviam ter dado.)

Fábio e Glauco viajaram com os músicos para shows em Salvador e Recife. Não havia passagem para Tim que ficou sozinho em casa com uma graninha para as despesas, terminantemente proibido de atacar a empregada. Sua primeira providência foi tirar folga do dromedário e se mudar para a cama de Glauco, depois de testar a de Fábio. Na parede em frente à cama havia um imenso pôster colorido de uma morena estonteante, nua contra o mar azul do Taiti. Nos lençois e travesseiros ainda dava para sentir o perfume do broto degustado por Fábio. Tim se sentiu mais sozinho do que nunca, pegou no violâo e começou a cantar. Quando Fábio voltou da viagem, Tim ligou o gravador e disse que tinha feito uma música inspirado no pôster. ‘Carajo, mermão!’, gritou Fábio, aplaudindo e abraçando Tim, ‘tu acabou de fazer a música da sua vida!’ 

A música da sua vida

Convite para A Festa

 

... corta para a tropa de choque invadindo a Praça da Estação

... corta para a tropa de choque invadindo a praça da estação e acossando os sem terra...

O livro é muito legal, é tipo assim, antes de dirigir Pulp Fiction, o Tarantino passa por sessões forçadas de análise da conjuntura com Trotsky e Lênin e resolve fazer algumas modificações no roteiro. Aí transforma isso num livro e é em BH do início da década de 70. Chama-se A Festa, é um clássico, é do Ivan Ângelo. Estou com um post pronto, já vem, mas quis compartilhar essa iluminação antes de tudo. É o convite para entrar e entender.

Poema grudento

Estou procurando um poema engraçadinho que termina mais ou menos assim: “Ah, meu amor, me chame de Rimbaud”. Há dias na cabeça, igual música grudenta. Eu tinha certeza que era do Marcelo Dolabela. Mas não achei no Radicais e nem no Amônia, os dois sensacionais. O único problema do Dolabela é ser inteligente em excesso, exigindo chaves demais para abrir alguns poemas. Mas, ainda assim, bárbaros. Olhei o Taquicardias, uma coletânea com o espírito da coisa. Não estava lá, e nem no Retrato de Época, uma tese sobre poesia marginal, com centenas de exemplos. Achei que eu já havia misturado demais as coisas e perdido muito tempo atrás de um poema mequetrefe. O Chacal não era. Fiquei meio na dúvida e me voltei para o suspeito de sempre: Leminski. Isso já era dois dias depois. Não estava no La Vie en Close e nem qualquer outro da estante (sempre um prazer, ler e reler, reler e ler). Me veio essa iluminação, só pode estar no Distraídos Venceremos. Que sumiu. Sumiu umas três ou quatro vezes na minha vida, é o livro que mais perdi, já falei sobre isso. Então, três dias depois do início da caçada, baixei na internet um pirata do distraídos, só para conferir. Uma alegria esse breve reencontro, preciso comprar de novo, urgentemente. Mas não está lá. E a coisa não desgruda. Quem me ajuda? Enquanto isso, confiram um dolabela versus leminski.

Dolabela & Rimbaud:

FLEURS DU MAL
não existe propriamente
a fatalidade
existe o vacilo
 
toda paixão gigante
na realidade
só tem bacilo

Leminski & Rimbaud:

M, DE MEMÓRIA
Os livros sabem de cor
milhares de poemas.
Que memória!
Lembrar, assim, vale a pena.
Vale a pena o desperdício,
Ulisses voltou de Tróia,
assim como Dante disse,
o céu não vale uma história.
Um dia, o diabo veio
seduzir um doutor Fausto.
Byron era verdadeiro.
Fernando, pessoa, era falso.
Mallarmé era tão pálido,
mais parecia uma página.
Rimbaud se mandou pra África,
Hemingway de miragens.
Os livros sabem de tudo.
Já sabem deste dilema.
Só não sabem que, no fundo,
ler não passa de uma lenda.
Uma tem 17 anos, escreve histórias de amor e redenção com jovens de jaqueta preta incompreendidos pela sociedade. O outro, internado no manicômio, redige cartas suplicando a alguma alma piedosa uma dose apenas de heroína. S.E. Hinton e Artaud formam uma bela dupla. 

We're dancing for the restless and the broken-hearted

We're dancing for the restless and the broken-hearted

Fui procurar a primeira, na estante, depois de uma madrugada meio tonto revisitando uns filmes popcorn dos anos 80. Streets of fire eu até baixei a trilha e fiquei tentando acordar os meninos cantando o refrão de tonight is what it means to be young. Quis saber onde tinha ido parar Diane Lane e fui lembrado que ela também estava em Rumble Fish e Outsiders, da mesma época, ambos do Copolla e baseados em livros da Hinton. Outsiders eu tinha e estava lá. Estou relendo, é tipo fofinho. Tem personagens com nomes como Sodapop e Ponyboy. São greasers, os brancos pobres de east side, às turras com os socs, brancos ricos de west side. Todos muito angustiados e profundos e rebeldes e com casacos de couro. James Dean e sua turma. Vendeu horrores esse livro, diz a orelha, não é difícil imaginar o motivo. E, contextualizado, seria até divertido, o problema é que a jovem escritora tem aquele otimismo desbravador ianque, acredita nas instituições e no potencial da espécie humana. Os greasers são fodidos, mas o juiz é compreensivo, o professor compromissado e o policial empenhado. Fora o deliqüente que salva criancinhas de um prédio em chamas. Juro que tem essa parte.

Bem, Artaud. Artaud comia criancinhas. Não acredita nas instituições e considera elevado o potencial humano para a destruição. Era um cara confessional, escrevia compulsivamente e não viveu como queria. Sua história é uma história de dor e fracasso. Não é o rebelde James Dean e sua gangue, é o rebelde desaparecido em manicômios da França ocupada durante a guerra, sem público, sem comida, levando choque. Anos. Fiquei meio envergonhado ao reler o Escritos de Antonin Artaud. Alguns textos falam de literatura, teatro e poesia, mas a maioria é só ira.
 
A rebelde S.E Hinton: 
Não era só porque tinham batido até deixar ele meio morto, aquilo ele até encarava. Mas assustaram ele. Tinham feito todo o tipo de ameaças. O Johnny já era super nervoso, uma pilha, de tanto apanhar de cinta toda vez que olhava para o lado e de tanto ouvir os pais brigando. Qualquer outra pessoa podia ter ficado rebelde e amarga de viver daquele jeito, mas a coisa estava matando o Johnny. Nunca mais andou sozinho. E o Johnny, que de todos nós era o que mais respeitava as leis, agora andava com um canivete de quinze centímetros no bolso de trás das calças. Ninguém ia bater nele daquele jeito de novo.
O rebelde Artaud:
As pessoas são imbecis. A literatura está esvaziada. Não existe mais nada nem ninguém, a alma é insana, não há mais amor, nem mesmo ódio, todos os corpos estão saciados; as consciências, resignadas. Nem mais existe aquela inquietação que atravessa o vazio dos ossos, só existe uma imensa satisfação de inertes almas bovinas, servos da imbecilidade que os oprime e com a qual não param de copular dia e noite, servos tão chatos como esta carta na qual tento manifestar meu desespero contra uma vida conduzida por um bando de criaturas insípidas que querem nos impor seu ódio contra a poesia.

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